2.11.06

Dízimo, com quem andas?

Hoje, encontrei em minha caixa de correio o jornal Folha Universal, editado pela Igreja Universal do Reino de Deus. O jornal é bem feito, impresso a cores, existe há 14 anos e possui uma tiregem superior a 2,3 milhões de exemplares (pelo menos é o que eles declaram), prova de que o Bispo Edir Macedo não brinca em serviço.

Em meio a notícias sobre esportes, TV e outras de caráter geral, chamou-me a atenção o espaço dedicado a matérias sobre a Internet, a seção de anúncios pessoais (gente em busca de relacionamentos amorosos) e os testemunhos de prosperidade. Deixarei para comentar posteriormente os dois primeiros temas, atendo-me, por enquanto, aos testemunhos de fiéis que afirmam haver prosperado em conseqüência da sua fé.

A IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) inspira-se no movimento pentecostal norte-americano e tem como base a Teologia da Prosperidade, que entende a prosperidade econômica terrena como confirmação da benção de Deus. A miséria é encarada como uma maldição, fruto do pecado e da falta de fé. A lógica, eminentemente capitalista, é a seguinte: quem tem fé, deve demonstrar isto através do pagamento do dízimo e de ofertas em bens ou dinheiro; quem paga, é recompensado por Deus; a recompensa é proporcional ao pagamento; logo, quanto maior for o dízimo e o valor das ofertas, maior a recompensa (prosperidade).

A matéria em questão se chama Milagres da Fogueira Santa (ou será este o nome de uma seção?) e contém três casos de sucesso dos chamados "dizimistas fiéis" (aqueles que nunca deixam de pagar). Li apenas o caso de um certo Adão Alves dos Santos, que pode ser assim resumido:

  1. Adão chegou à Igreja Universal com uma dívida superior a 40 mil reais, sem crédito na praça, 50 cheques sem fundos e dependência alcoólica, vício que desenvolveu em consequência da sua situação financeira;
  2. Na igreja, Adão foi libertado da bebida, mas os problemas financeiros persistiam;
  3. Somente depois que Adão aprendeu a confiar plenamente em Deus e a ser fiel no dízimo e nas ofertas (para tanto, vendeu um carro e uma moto), as coisas mudaram e ele começou a prosperar. Hoje, Adão (que aparece numa foto ao lado de um Ford Eco Sport) é dono de uma empresa que presta serviços de despachante, possui 3 carros, 3 motos e já vai abrir uma filial da sua empresa em outro estado.

Não questiono a importância da religião na vida dos indivíduos e das sociedades. A sociologia, desde seu nascimento como ciência, reconhece isso (ver Durkheim, Weber, Mauss etc). A questão que coloco é até que ponto a IURD pode, efetivamente, ser considerada uma religião. Como não sei a resposta, só me resta tomar emprestado os versos que Vinicius compôs para aquela bela música de Garoto: "Eu, que não creio, peço a Deus por minha gente. É gente humilde. Que vontade de chorar."



Adendo:
- A IURD é, atualmente, objeto de estudo de vários sociólogos. Dois deles são meus colegas de Mestrado e pretendo discutir este assunto com eles. Quem sabe volto a escrever a respeito?

3 comentários:

Anônimo disse...

Eles têm uma tocha milagrosa que é melhor que a lampada de Aladin resolve todos os problemas finaceiros. Dívidas que desaparecem, patrimônios que crescem como abobora e por aí vai... Estou pensando seriamente em adquirir um lampada dessa, hô!! quero dizer, uma tocha dessa. Quem sabe acabo com meus problemas financeiros! Por outro lado, você observou bem, será que esse tal de Deus é capitalista? Bom só Deus sabe.

Anônimo disse...

Como disse um dia o filósofo Steve Martin, "fé demais não cheira bem".

Ricardo M
www.homembaile.blogspot.com

Pati Haddad disse...

Eu tenho pena dessa gente que acredita nesses "milagres" e passa necessidade em casa para pagar o dízimo e ainda é tachada de "sem-fé" ou de "maldita" quando os "milagres" não acontecem...