21.2.07

Carnaval #2


O carnaval da Bahia está, ainda, por merecer um estudo sério e profundo sobre suas implicações econômicas e sociais. O que era manifestação cultural expontânea transformou-se numa grande indústria, geradora de empregos (formais e informais), renda e impostos.

Se há nisso um componente destruidor, muito bem colocado pela Cláudia em seu blog, há também um conjunto de aspectos positivos que não devem ser desprezados. O processo de profissionalização dos blocos e trios elétricos foi uma resposta à exploração do carnaval de rua de Salvador, por parte da mídia hegemônica, como grande espetáculo gerador de grandes receitas publicitárias. Essa profissionalização fez com que os blocos e trios deixassem de ser coadjuvantes e se assumissem como atores principais do espetáculo. Os blocos e trios de hoje representam a evolução, através de fusões, incorporações e aquisições de outros tantos que existiam nas décadas de 1970 e 1980. Os blocos que resistiram ao processo foram engolidos ou desapareceram.

Os blocos são geridos com grande competência. Prova disso é o uso do conceito crescimento baseado em "novos usos" e "desenvolvimento de novos mercados", que se traduz em diversos outros eventos carnavalescos realizados ao longo ano, e a exportação do nosso carnaval de rua para outros estados e países. O que era sazonal e dava dinheiro apenas em fevereiro, agora gera receita (e muita) o ano inteiro. O patrocínio desses blocos é disputado pelos grandes fabricantes de bebida - ou seja, cerveja - e alguns, a exemplo do Camaleão, têm suas marcas associadas a diversos produtos, através de contratos de franquia (no ano passado, por exemplo, a Ford lançou o Eco Sport Camaleão). Traduzindo: trata-se de um negócio que é tocado dentro de princípios estritamente capitalistas.

Acontece que todo sistema traz em si mesmo sua própria contradição e, no caso do carnaval de rua de Salvador, o "povão" terminou ficando do lado de fora da corda do bloco. Como se não bastasse, durante os dias da festa, bens públicos como ruas, calçadas e praças, são privatizados e se transformam em camarotes onde a elite assiste a tudo sem precisar se misturar com o povo e, pelo menos teoricamente, sente-se protegida contra os atos de violência.

Considerado o maior evento de rua do mundo, o carnaval de Salvador está diante de um problema. Os foliões endinheirados e os turistas formam um contingente que cresce a cada ano e demanda cada vez mais espaço. Onde, então, colocar o povão?

Foto: Estadão

7 comentários:

Fugu disse...

Aqui no Rio, o povão simplesmente abandonou os desfiles e criou seus ´próprios blocos. A cada ano que passa, mais blocos são criados e mais ruas são ocupadas por simples amadores do carnaval, gente que só quer pular e brincar. E quer saber de uma coisa? Está ótimo!

Claudia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Claudia disse...

Vc falou do meu post. E eu falo do seu.. rs..
ÓTIMO!
Excelente a sua abordagem.. Bem direta, objetiva, racional e esclarecedora. É como se fosse o q faltou ao meu, por ter sido totalmente emocional(mas foi minha intenção mesmo.. rs...)
Concordo c vc, q na verdade, essa reação e profissionalização dos blocos foram defensivas p pegar uma fatia desse bolo rico, pois eles estavam sendo espoliados e para sobreviver à "evolução". É isso mesmo.
Só que os blocos pararam aí.. Eles nem cogitam em pegar uma mínima parte dessa renda e investir em projetos sociais, p exemplo. E claro, não tomam partido contra essa segregação visível que está acontecendo e q vc citou..
Para ser honesta e posso até estar sendo idealista demais, só enxergo o lado negativo disso td..
Mas vc está certo, esse problema mereceria um "estudo sério e profundo sobre suas implicações econômicas e sociais" e eu diria culturais.
Adorei esse post..
Bjo p vc..

Fugu disse...

Off topic: O Fruit está fazendo aniversário. Apareça lá para comer um pedaço de bolo .. rsrs
beijo você

r a c h e l disse...

bom, o sofitel é ótimo. hahahaha.
beijo amigolhes!

Cejunior disse...

Fugu tem razão: o povo fugiu do carnaval organizado (ficou para turistas e endinheirados).
O problema é que esses novos blocos já estão falando em abadás e afins, ou seja, vai cair tudo num circulo vicioso.
Espero que não!

Alexis Kauffmann disse...

Ok, Zé, você estuda a sociologia do carnaval baiano enquanto fenômeno econômico-político-industrial e eu vou estudando o decote da Ivete... Posta mais material empírico aí, doutor!!!